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Terapia Existencial e a Cena Americana
O NOSSO PROBLEMA  posto por um paradoxo com que nos defrontamos logo que se enuncia o tpico da 
anlise existencial e a cena americana. Por um lado, a anlise existencial tem muitas e profundas afinidades com 
os traos subjacentes do carter americano. Mas a psicologia e a psiquiatria americanas tm sido 
decididamente ambivalentes em relao quela. Ao indagar as razes para essa curiosa contradio, no 
devemos esconder-nos atrs do fato de que as tradues das obras bsicas dos psiquiatras e psiclogos 
existenciais s se tornaram acessveis na Amrica (e em ingls) h meia dzia de anos; pois as tradues 
seguem-se ao interesse e no, simplesmente, o interesse  que decorre da existncia das tradues. 
Neste captulo, desejo, primeiramente, mostrar a relao que existe entre alguns dos princpios fundamentais da 
psicoterapia existencial e os traos subjacentes no carter e pensamento americanos. Segundo, desejo 
sublinhar alguns aspectos da nossa situao americana que elucidam o seguinte paradoxo: embora sejamos, 
em alguns aspectos, um povo muito existencial, descon 
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fiamos do existencialismo. Em terceiro lugar, quero enfatizar alguns elementos na anlise existencial que foram considerados 
de especial significado em nossa psicoterapia. E, quarto, proponho-me citar numerosos problemas irresolvidos e crticas da 
anlise existencial, que tm sido formulados por psicoterapeutas americanos. 
Uma nfase central em toda a abordagem existencial, notadamente, a nfase sobre o saber fazendo,  particularmente 
chegada ao pensamento americano. Quando Kierkegaard proclama: 
A verdade s existe para o indivduo  medida que ele a transforma em ao, as palavras tm um timbre familiar para 
todos os que foram criados na tradio pragmtica americana. Paul Tillich, um filsofo que representa uma ala do 
pensamento existencial, expressou excelentemente, em seu livro The Courage Lo Be, 1 a atitude existencial latente numa 
multido de americanos. Em seu ensaio clssico sobre a filosofia existencial, Paul Tillich escreveu: 
 semelhana dos filsofos americanos William James e John Dewey, os filsofos existenciais esto reclamando contra as 
concluses do pensamento racionalista, que equipara a Realidade com o objeto do pensamento, com relaes ou 
essncias, e defendendo a Realidade tal como os homens a experimentam em sua existncia real. Por conseguinte, eles 
alinham com todos aqueles que tm considerado a experincia imediata do homem mais completamente reveladora da natura 
e dos traos da Realidade do que a experincia cognitiva do homem.3 
No pensamento e nas atitudes americanos tambm  muito importante a desconfiana em relao s categorias abstratas ou 
 teorizao per se, uma desconfiana to veementemente manifestada por Kierkegaard, assim como a rejeio da 
dicotomia sujeito-objeto. 
Quando se l William James, em particular, descobre-se uma espantosa afinidade com os pensadores existenciais. Alm dos 
pontos acima citados, James revela uma nfase apaixonada sobre o imediatismo da experincia. Ele sustentou 
que ningum pode conhecer a verdade sentando-se numa poltrona imparcial mas s na experincia que inclui a 
vontade. Quer dizer, a deciso, no nosso prprio eu,  uma preliminar necessria para desvendar a verdade. A 
sua epistemologia tem semelhanas flagrantes com a de Nietzsche, na primeira metade de  Vontade de Poder, 
quando Nietzsche sustenta que a verdade  o meio pelo qual um grupo biolgico se realiza. Finalmente, 
William James possua uma imensa humanidade e, atravs da sua vastssima tolerncia e largueza de vistas 
como homem, pde conjugar a arte e a religio em seu pensamento sem sacrificar a sua integridade cientfica. 
Foi ele quem, praticamente sozinho, salvou a psicologia americana do comeo do sculo de se perder numa 
atividade filosofante ex cathedra, por uma parte, ou nas mincias do laboratrio psicofisiolgico, por outra 
parte. Em numerosos aspectos, James  o mais tpico de todos os pensadores americanos. 
Mas, pelo mesmo paradoxo que discutimos acima, William James tambm foi, de modo geral, rejeitado com um 
benvolo desdm pelas universidades americanas, no perodo entre as duas guerras mundiais. A psicologia e a 
psiquiatria das ltimas trs dcadas foram predominantemente behavioristas e positivistas. James  
representante das atitudes subjacentes na Amrica que se encontram imediatamente abaixo da superfcie 
consciente; e  altamente significativo que um renascimento do interesse e admirao pela sua grande 
importncia como pensador esteja ocorrendo atualmente em nossas universidades. De modo paralelo, o 
interesse pela anlise existencial, na Amrica, tem estado latente e suprimido, mantendo-se abaixo da superfcie 
consciente do pensamento americano. 
Qual  a causa desse paradoxo? Convido o leitor a dar comigo uma olhada de relance por certos dilemas, em 
nossa situao americana, que projetam alguma luz sobre esse paradoxo. A preocupao do homem ocidental 
com os mtodos mecanistas e a sua apoteose na tcnica fez-se duramente sentir em ns, na Amrica; e, em 
alguns aspectos, os nossos conflitos refletem os dilemas mais decisivos e portentosos do homem ocidental. 
Proponho que a melhor maneira de compreender o carter americano  v-lo atravs do smbolo da fronteira. 
Na esmagadora maioria, ns estamos, literalmente, a uma ou duas geraes da fronteira, apenas, desde o 
estado real de pioneiros. E mesmo que, como os filhos de famlias imigrantes, no fssemos criados na 
fronteira geogrfica, estamos ainda  distncia de uma gerao da fronteira econmica e educacional. Na 
fronteira, era essencial enfatizar a prtica, estar capacitado a desbravar a nossa 
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prpria terra e a construir a nossa prpria casa. A confiana do indivduo em si prprio era de primeira 
importncia, pois o homem, individualmente e com sua famlia, tinha de viver amide por si mesmo, em lugares 
isolados das pradarias e florestas.  fcil perceber como a subjetividade e a introspeco seriam uma real 
ameaa para essas pessoas fisicamente isoladas, e como elas tinham de reprimir radicalmente a sua 
subjetividade para escapar a um colapso. Dai a nossa desconfiana a respeito da teorizao, da especulao 
abstrata ou da intelectualizao per se. 
Alm disso, a fronteira era sempre mvel; havia sempre algum lugar para ir horizontalmente. O indivduo no 
precisava, como na Europa, entrar verticalmente em sua prpria experincia. Da a grande nfase sobre espao 
e categorias espaciais na Amrica, em contraste com o interesse europeu no tempo, A coragem americana 
de mudar de emprego  o que os socilogos chamam mobilidade econmica  no deve sei meramente 
interpretada, em absoluto, como materialismo crasso ou exclusivamente como uma fome & ganhos 
econmicos; ela demonstra uma autoconfiana que se situa a meio caminho entre os plos espiritual e material. 
Como Paul Tillich sublinha. 6 uma atitude espiritual de coragem aceitar riscos e tomat o destino nas prprias 
mos. Isto est associado  convico, na Amrica, de que todos, podem mudar sua vida, o que tem sido 
chamado, por vezes, existencialismo otimista. Da a grande preocupao, na Amrica, de ajudar as pessoas 
em seus problemas. A grande expanso das clnicas matrimoniais, dos centros de ajustamento, e a 
popularidade generalizada da psicoterapia esto ligadas, em parte, a essa convico de que cada um deve estar 
apto a tornar-se algo inteiramente novo. 
No poderia ser proveitosamente ventilada a questo de saber se a nossa nfase sobre o racionalismo 
pragmtico e os controles prticos, assim como o nosso modo behaviorista de pensar, no constituiro uma 
defesa contra os elementos irracionais que estavam presentes na mair parte da nossa sociedade, h apenas 
cem anos, nas fronteiras? Esses elementos irracionais esto sempre vindo  tona, muitas vezes para nosso 
considervel embarao  desde as fogueiras revivalistas dos movimentos emocionais do sculo XIX at ao Ku 
Klux Klan e ao prprio movimento antiintelectual. Grande parte do nosso trabalho psicolgico pode ser visto 
como um desdobramento de esforos para controlar esse irracionalismo. 
Mas penso existir um aspecto especial em nossa preocupao e interesse absorvente, nos Estados Unidos, 
com o comportamento; os programas nacionais de televiso da American Psychologica 
Association so intitulados Accent on Behavior (Acento no Comportamento) e a nossa principal e 
mais extensa contribuio original para o desenvolvimento psicolgico ocidental  o behaviorismo 
(comportamentismo) - Praticamente todos ns, em nossa sociedade, ouvimos quando crianas: Comporte-se!. -. 
Veja como se comporta! No ser tambm a nossa nfase sobre o comportamento um resqucio do nosso 
puritanismo de homens da fronteira? A hiptese da estreita relao entre o nosso herdado puritanismo 
moralista e a nossa preocupao com o comportamento, no estudo do homem, culminando nas cincias do 
comportamento, no  absurda, em absoluto, e o estudo dessa tese poderia produzir alguns resultados 
interessantes. Eu,  claro, estou inteiramente a par do argumento de que temos de estudar o comportamento 
porque  tudo o que nos  acessvel com qualquer grau de objetividade. Mas no ser isso o nosso 
preconceito bitolado, em grande parte determinado pelo nosso particular tempo histrico, erguido ao nvel de 
um princpio cientfico? 
As virtudes da fronteira, no carter americano, comportavam srios perigos e  aqui que o paradoxo da 
supresso da atitude existencial se torna mais claro. Pois a nfase sobre a prtica e a mobilidade espacial 
levou a uma supernfase das tcnicas, ao culto da tcnica como um modo mecnico de controlar a natureza, e 
 necessidade, portanto, como um corolrio, de ver a personalidade humana como um objeto de controle,  
semelhana do resto da natureza, Neste ponto, a tragdia peculiar do homem ocidental cobra seu especial 
tributo na Amrica. A crena na tcnica pode ser um mtodo eficaz para aliviar a ansiedade; e pode muito bem 
ser que, na Amrica, tenhamos reagido principalmente com esse mtodo s pcrturbaes da catastrfica 
situao contempornea na soctedade ocidental. Essa convico combina-se com a esperana frentica, 
embora ilusria, de que no teremos de fazer frente, de algum modo,  devastadora ansiedade causada pelo 
transe do mundo atual, dsde que possamos descobrir a tcnica correta. 
As virtudes acima citadas ajudaram, do mesmo modo, a um superotimismo sobre a natureza humana, um 
otimismo que se casou, compreensvel mas lamentavelmente, com a f nas tcnicas. Um dos nossos mais 
srios perigos na Amrica  a tendncia para acreditar que a tcnica, em si mesma, pode mudar as pessoas, 
que qualquer um pode mudar se encontrar o mtodo certo. Essa f, com freqncia, pode servir como 
substituto para a coragem interior que  necessria para enfrentar a nossa prpria existncia, em suas 
possibilidades tanto trgicas como felizes. Fazer  
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muitas vezes mais fcil e pode aliviar mais rapidamente a ansiedade do que ser. 
Um outro problema resulta do fato de que, na fronteira, todo homem comeou da estaca zero. Cada homem, em 
teoria, construiu a sua prpria histria. Por isso, a tendncia  para faltar-nos um sentido de histria, assim 
como as experincias mais profundas do tempo em ser. Mas, em minha opinio,, o mais srio de ludo  a nossa 
falta do sentido de tragdia na existncia humana. 
Gabriel Marcel disse que a caracterstica do homem ocidental moderno  a sua represso do sentido 
ontolgico, a sua fuga  conscientizao do seu prprio ser. Marcel sugere, corretamente, ser essa represso 
ontolgica e no a represso dos instintos que sublinha, precisamente, os aspectos mais profundos da 
neurose do homem ocidental contemporneo. A represso do sentido onto. lgico, por exemplo,  o que 
realmente significamos atravs da expresso, um tanto vaga, perda de ser uma pessoa; e est subentendida 
nos vastos movimentos de conformismo e nas tendncias para a perda da autoconscincia individual, em 
nossos dias. Muitos americanos esto profundamente preocupados com essa represso do sentido 
ontolgico, porque at a nossa boa sorte nos torna particularmente vulnerveis a essa perda. Os nossos 
vastos recursos e a nossa posio geogrfica habilitaram-nos a evitar os trgicos choques  existncia que 
foraram as pessoas, na Europa, a preocupar-se com a ontologia, quer o desejassem ou no, e as impeliram a 
defrontar diretamente a ansiedade, a morte e os outros dilemas existenciais da vida. 
Chegamos agora, exatamente, ao ponto cm que a mudana mais significativa est ocorrendo na Amrica. Existe 
uma forte atitude nascente, no pensamento americano, a que eu chamaria fome ontolgica. Isso foi 
evidenciado, em sua forma popular, na revivescncia religiosa que se generalizou durante a dcada de 1950. 
Mas tambm se mostra nas questes de significado existencial que so formuladas pelos cientistas e lderes 
culturais de todos os tipos na Amrica. Quanto  revivescncia religiosa, eu tinha graves dvidas, por causa 
do seu carter conformista. Mas no pode haver dvidas quanto ao significado do novo interesse entre 
psiquiatras, psiclogos e outros intelectuais sobre o sentido da existncia humana. Se bem que suspeite de 
que a nfase positivista na psiquiatria e psicologia americanas ainda ser dominante por algum tempo, existem 
indcios claros de que a nfase existencial ter uma influncia profunda, como um fermento levedando o po. 
Alguns dos aspectos particulares da psicologia e psiquiatria existencial que ns, portanto, consideramos de 
especial valor e significado so os seguintes. Em primeiro lugar, a insistncia exaltada de que o homem seja 
tratado, mesmo na cincia, como algo mais do que o homo naturans, e a insistncia de que as condies 
distintivas da humanidade do homem so o nosso assunto especial, aquilo que particularmente nos interessa  
como foi enfatizado, de forma to central, na obra de Binswanger. Segundo, a investida contra a solido 
epistemolgica da nossa situao moderna e a corroso da estreita e obsoleta causalidade ocidental  uma 
contribuio fenomenolgica dada com tanta elegncia e clareza na fenomenologia de Minkowski e Straus. 
Terceiro, a nfase em que toda e qualquer psicoterapia  baseada em pressupostos filosficos, e em que s 
pode resultar dano e confuso de qualquer tentativa para obscurecer esses pressupostos. Concordo com a 
advertncia de Zilboorg contra a vinculao demasiado ntima da psicoterapia a qualquer filosofia especifica. 
Contudo, o ponto crucial, em minha opinio,  diferente do assinalado pelo Dr. Zilboorg. A minha assero  
que a maioria das escolas de psicoterapia no admitiu sequer a necessidade de qualquer filosofia  tudo o que 
elas precisavam era de olhar objetivamente para os fatos, na mais santa ignorncia de que esse mesmo 
processo de olhar para os fatos envolve pressupostos filosficos sumamente profundys e radicais.  essencial 
esclarecer as bases ontolgicas em que assenta a dinmica da psicanlise. Nunca salientarei demais a 
importncia desse empreendimento, porquanto penso que dinamismos tais como a transferncia, a resistncia 
etc, pairam no ar e no podero ter um significado duradouro a menos que as suas bases ontolgicas, na 
situao do homem como homem, possam ser compreendidas. 
Acredito, alm disso, que a abordagem existencial pode e deve ter efeitos profundos e de largo alcance na 
terapia prtica com os pacientes, embora essa contribuio ainda no tenha sido adequadamente 
desenvolvida. A abordagem existencial deve abrir caminho atravs do artificialismo de boa parte da 
psicoterapia tradicional e insuflar no processo um sentido mais dinmico de realidade. Ento, a psicoterapia 
no ser tratament. em sua acepo limitada, mas ser um encontro da pessoa com a sua prpria existncia, 
numa forma imediata e quintessencial. Um aspecto especfico dessa nova dinmica, para darmos um exemplo,  
visto no princpio de que a deciso precede a introviso e o conhecimento. Costumava supor-se que, quando 
o paciente 
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adquire suficiente introviso (insightl, est em condies de tomar as decises certas. Hoje, podemos ver que isso  
apenas uma meia-verdade e, de fato, convida o paciente a renunciar  sua prpria existncia. A outra e inteiramente 
necessria metade da verdade  que o paciente jamais ter introvises, jamais estar apto a ver a verdade, a menos que 
esteja pronto para chegar a decises sobre a sua prpria existncia. O significado da relao pessoal entre o 
terapeuta e o paciente no , meramente, que o primeiro proporciona ao segundo um novo pai ou uma nova me  agora 
bons  mas, de modo mais bsico, que d ao paciente um novo universo pessoal, caracterizado por interesses estveis, em 
que ele torna-se capaz de assumir uma orientao decisiva para a sua prpria existncia. 
Alm disso, a nfase existencial muda as metas da terapia. J deixamos de ser seduzidos pela idia ubqua de ajustamento 
que, em nossa sociedade, pode ser apenas outro nome, freqentemente, para o conformismo e a perda real da nossa prpria 
existncia. A meta consiste, antes, num total confronto com a nossa prpria existncia, ainda que a pessoa possa ser ento 
menos ajustada  sociedade e ainda que possa conter mais ansiedade consciente, isto , ansiedade existencial normal, do 
que antes. Essa mudana de metas habilita-nos a tratar com as mais impo4antes realidades da vida, as quais, de modo geral, 
tinham apenas uma posio apagada na terapia, at agora, notadamente, a ansiedade e a culpa normais, a alegria, o amor e a 
criatividade. 
Desejo agora citar vrios problemas e crticas que me impressionam. O primeiro diz respeito  negao, em grande parte da 
psiquiatria existencial e fenomenolgica, do que  chamado o inconsciente. Proponho-me, modestamente, acusar muitos 
dos nossos colegas existenciais, particularmente na Europa, de serem no-existenciais ao tratar de o inconsciente. Ora, 
 verdade, como f vimos, que o conceito de inconsciente, em Psicanlise, favoreceu notoriamente a tendncia para uma 
causalidade mecanstica supersimplificada. Mas a nossa reaco a isso dever-nos-ia conduzir a uma nova formulao  e no 
a uma negao  dos domnios mais profundos e mais vastos da experincia simbolizados pelo conceito de inconsciente. Os 
terapeutas e pacientes falam, freqentemente, de algo no inconsciente do paciente que causa este ou aquele sintoma ou 
comportamento. Essa  a noo de poro da experincia inconsciente e,  claro, deve ser rejeitada. 
Mas o verdadeiro significado histrico da formulao de c inconsciente por Freud tem um sentido muito diferente. O seu 
grande significado  uma ampliao da dimenso da personalidade um avano radical sobre o estreito racionalismo e 
voluntarismo do homem vitoriano. A idia de experincia inconsciente confere  personalidade dimenses profundas que a 
cultura vitoriana procurou refutar, as profundidades do que designamos por idias e impulsos irracionais, primitivos, 
reprimidos ou esquecidos, e outros aspectos da personalidade que esto intimamente vinculados a muitas potencialidades 
trgicas do homem. Essa dimenso  - o significado histrico do aparecimento desse conceito de experincia inconsciente 
entre os pensadores existenciais do sculo XVIII, Schopenhauer e Nietzsche, e em Eduard von Hartmann, cujo livro Freud 
leu. Embora o prprio Freud cometa um erro ao usar esse conceito de uma forma extremamente simplificada, o seu 
verdadeiro gnio manifesta-se no mais amplo significado atribudo ao termo, a saber, a ampliao radical das dimenses 
profundas da personalidade humana. Em meu entender, muitos dos argumentos dos autores existenciais e fenomenolgicos 
contra o inconsciente pecam por excessivo legalismo, atendo-se  lgica verbal e esquecendo-se de tomar o termo em seu 
significado dinmico e existencial. Sem dvida,  sempre inacurado falar de o inconsciente, o pr-consciente ou 
subconsciente: nunca se trata de lugares. Mas devemos estar aptos a incluir a experincia inconsciente. Este problema 
ainda no foi adequadamente tratado. Por muito paradoxal que isto possa soar, estou esperando que algum nos ajude, 
contribuindo com uma fenomenologia da experincia inconsciente. 
O segundo problema consiste na exagerada importncia atribuda  dimenso gentica em grande parte da anlise existencial. 
Estou inteiramente cnscio dos abuss da causalidade gentica em Psicanlise, como se v nas tendncias para dizer a um 
paciente que ele faz alguma coisa porque lhe aconteceu isto ou aquilo durante a infncia.  um perigo real, especialmente na 
Amrica, 4ue fiquemos to interessados em averiguar imediatamente por que uma pessoa se comporta desta ou daquela 
maneira que acabemos por nunca entender o que ela est fazendo. Sem dvida, essa causalidade supersimplificada 
prejudica uma compreenso genuna do paciente. No obstante,  impossvel duvidar do grande poder formativo das 
experincias no comeo da infncia. Tais experincias no so causais, na forma supersimplificada, mas tm um poder 
quintessencial que se expressar mais tarde em smbolos: so as foras formativas do que Adier chamou o estilo de vida. 
Um renomado colega meu observou, recentemente, existir o perigo de que a fenomenologia possa tornar-se apenas 
bidirnensional. No  evidente que a existncia de um indivduo nunca poder ser vista em sua plenitude sem a dimenso da 
gnese histrica? E que deve ser encontrado um meio de incluir a riqueza e a dinmica das experincias da infncia, numa 
base diferente da antiga causalidade? 
Um terceiro problema que os meus colegas suscitam  a falta de interesse teraputico em alguns escritos psiquitricos 
existenciais europeus. Poderei ser acusado, neste ponto, da velha preocupao americana com a cincia aplicada, o nosso 
desejo de mudar todo o mundo. No me desculpo pela nossa preocupao em ajudar quem quer que sofra, ainda que isso 
possa, por vezes, parecer quixotesco. A minha tese, entretanto, envolve mais do que isso, pois nunca poderemos apreender 
a outra pessoa em sua existncia real se no a virmos, a todo o instante, em processo de tentar tornar-se alguma outra coisa. 
O seu eu, como insistia Kierkegaard,  apenas aquilo que a pessoa est em processo de vir a ser, O crescimento e 
transformao moral  um aspecto onipresente da experincia de viver  e a negao pela pessoa dessa transformao moral 
 apenas a prova de um ngulo diferente. Alm disso, s podemos ver as pessoas reveladas em situaes crticas; nenhuma 
pessoa passar pelas agonias de desnudar os aspectos mais profundos do seu sofrimento psicolgico e espiritual, exceto se 
ela alimentar alguma esperana de obter ajuda para encontrar uma sada da sua angstia. Proponho que a Psicologia e a 
Psiquiatria so duas cincias que no podem conhecer o seu material, isto , as pessoas, salvo se estiverem orientadas, 
direta ou indiretamente, no sentido de ajudar essas pessoas. 
